A prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, reacendeu um clima de tensão nos bastidores de Brasília que analistas políticos dizem não ser visto desde a Operação Lava Jato. Vorcaro foi detido novamente no dia 4 de março durante uma nova fase da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal.

A investigação, autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, resultou na extração de mensagens do celular do banqueiro. O conteúdo revelou uma ampla rede de contatos que atravessa diferentes campos políticos — da direita à esquerda, passando pelo Centrão e também por integrantes do Judiciário.
A possibilidade de que Vorcaro firme uma delação premiada aumentou a apreensão entre lideranças políticas. Para o cientista político Lucas de Aragão, sócio da consultoria Arko Advice, o cenário atual é um dos mais delicados dos últimos anos na capital federal.
Entre os diálogos obtidos pela investigação, aparecem mensagens que indicam proximidade com o senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas e ex-ministro do governo Jair Bolsonaro. Em conversas, Vorcaro se referia ao parlamentar como “um dos meus grandes amigos de vida”.
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Segundo os registros, o banqueiro comemorou uma proposta de emenda defendida por Nogueira que ampliaria a garantia do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para R$ 1 milhão — medida que, segundo ele, seria uma “bomba atômica no mercado financeiro” por favorecer diretamente o Banco Master. Nogueira negou proximidade com o empresário e afirmou que as acusações são “uma mentira fabricada”.
As mensagens também mostram que Vorcaro mantinha acesso a integrantes do atual governo. Em dezembro de 2024, ele participou de uma reunião no Palácio do Planalto, levada pelo ex-ministro Guido Mantega, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo.
De acordo com o governo, a reunião ocorreu fora da agenda oficial e tratou de reclamações sobre a concentração do sistema bancário brasileiro. O Planalto afirmou que Lula apenas orientou que o tema fosse analisado tecnicamente pelo Banco Central.
A rede de conexões também alcança figuras do campo bolsonarista. Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e investigado na operação, foi o maior doador pessoa física da campanha presidencial de Bolsonaro em 2022, com R$ 3 milhões.
Aeronaves associadas ao banqueiro também teriam sido utilizadas por aliados da direita, como o deputado Nikolas Ferreira durante as últimas eleições. O parlamentar afirmou que, na época, não havia qualquer suspeita pública envolvendo Vorcaro.
Outros nomes conhecidos também aparecem nas mensagens, incluindo o ex-governador de São Paulo João Doria, que enviou uma mensagem ao banqueiro pedindo uma conversa reservada. A assessoria de Doria confirmou o contato, afirmando tratar-se apenas de um gesto cordial.
A defesa de Vorcaro afirma que a prisão preventiva foi decretada sem que a equipe jurídica tivesse acesso prévio aos elementos que justificaram a medida. O advogado Roberto Podval também criticou o envio das conversas para a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS, alegando que a intimidade de diversas pessoas está sendo exposta.
Especialistas avaliam que o caso revela uma nova dinâmica de poder no país. Para o analista político Creomar de Souza, da consultoria Dharma Political Risk, a investigação mostra que redes de influência hoje atravessam diferentes campos ideológicos.
Segundo ele, o episódio se assemelha a “balançar um pé de jaca”, em que diferentes personagens acabam surgindo nas investigações. Analistas destacam que, com o aumento do poder do Congresso e do Judiciário desde 2014, esquemas políticos e financeiros passaram a envolver múltiplos atores e instituições — e não apenas o Executivo federal.
Diante da possibilidade de novas revelações, o caso Banco Master continua provocando forte apreensão em Brasília e pode desencadear novos desdobramentos políticos nas próximas semanas.

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