Analistas avaliam que conflito no Oriente Médio serve de alerta estratégico para Pyongyang, mas arsenal nuclear e respaldo externo colocam regime em posição mais protegida que a do Irã.
A guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel deve ser observada com atenção máxima por Kim Jong-un, mas não necessariamente com o mesmo sentimento de vulnerabilidade enfrentado por Teerã. A reação inicial de Pyongyang foi de condenação direta aos ataques, classificados pelo regime norte-coreano como “agressão ilegal” e violação da soberania iraniana, em linha com a histórica aproximação política entre os dois países.
Nos bastidores da geopolítica, a leitura predominante é que o conflito tende a reforçar em Kim a convicção de que armas nucleares continuam sendo o principal seguro de sobrevivência do regime. A Coreia do Norte já é tratada de fato como um Estado nuclear: segundo o Sipri, o país possui cerca de 50 ogivas e material físsil suficiente para produzir até outras 40. Autoridades sul-coreanas também vêm alertando, desde 2024, para o avanço do programa de armas nucleares táticas norte-coreano.
A comparação com o Irã ajuda a explicar esse raciocínio. Enquanto a Agência Internacional de Energia Atômica continua monitorando e cobrando acesso ao programa iraniano, inclusive com dúvidas recentes sobre novas instalações de enriquecimento em Isfahan, a Coreia do Norte expulsou inspetores da AIEA ainda em 2009 e desde então avançou sem fiscalização internacional comparável, após já ter realizado seis testes nucleares. Em outras palavras, Pyongyang está em estágio muito mais consolidado de dissuasão militar do que Teerã.
Outro fator que reduz o temor imediato de Kim é o ambiente externo. A China vem reconstruindo sua influência sobre a Coreia do Norte e ampliando os laços econômicos com o regime; só nos dois primeiros meses de 2026, o comércio bilateral cresceu 22% na comparação anual. Ao mesmo tempo, Pyongyang aprofundou sua aproximação com Moscou, numa relação fortalecida pela guerra na Ucrânia e pelo intercâmbio de apoio militar, tecnologia e ajuda econômica.
Isso não significa tranquilidade total. A Coreia do Norte continua vendo os exercícios militares entre Estados Unidos e Coreia do Sul como ameaça direta e, há poucos dias, voltou a lançar mísseis em meio às manobras conjuntas. Ainda assim, a postura recente de Kim sugere mais confiança do que retração: em fevereiro, no congresso do Partido dos Trabalhadores, ele prometeu armas mais poderosas, manteve a expansão do programa nuclear e deixou aberta a possibilidade de diálogo com Washington, desde que os EUA aceitem a “nova realidade” nuclear do país.
No campo político, esse cenário também é favorecido pela disposição declarada de Donald Trump de voltar a conversar com Kim. Em 2025, o presidente americano voltou a se referir à Coreia do Norte como uma “potência nuclear”, e nas últimas semanas autoridades sul-coreanas relataram que Trump segue aberto a um novo encontro. Para Pyongyang, isso amplia a margem de manobra diplomática sem exigir, por ora, concessões estratégicas.
Assim, mais do que provocar medo sobre o futuro da Coreia do Norte, a guerra no Irã tende a aprofundar uma conclusão já consolidada em Pyongyang: sem arsenal nuclear, um regime hostil aos EUA fica mais exposto; com ogivas, mísseis e apoio de potências vizinhas, o custo de qualquer ação militar contra ele sobe drasticamente. A principal lição para Kim, segundo essa lógica, não é a de recuar, mas a de endurecer ainda mais sua estratégia de sobrevivência. Essa é uma inferência sustentada pelo estágio do programa nuclear norte-coreano, por seus vínculos com China e Rússia e pelo próprio discurso recente do regime.



