Filme 'Maria – Ninguém sabe quem sou eu' capta o desassossego de Bethânia entre entrevista inédita e imagens raras de shows antigos

Exibição de trechos de ensaios de espetáculos da cantora valoriza documentário de Carlos Jardim.

Filme 'Maria – Ninguém sabe quem sou eu' capta o desassossego de Bethânia entre entrevista inédita e imagens raras de shows antigos

Cartaz de 'Maria – Ninguém sabe quem sou eu', filme de Carlos Jardim — Foto: Divulgação

Cartaz de 'Maria – Ninguém sabe quem sou eu', filme de Carlos Jardim — Foto: Divulgação

 

Resenha de filme

Título: Maria – Ninguém sabe quem sou eu

Direção e roteiro: Carlos Jardim

Produção: Turbilhão de Ideias

Coprodução: Globo Filmes / GloboNews / Canal Brasil / Noticiarte Produções

Cotação: ★ ★ ★ ★

♪ Filme programado para estrear nos cinemas em 1º de setembro de 2022

♪ “Eu não me dou paz. Eu sinto tudo”, admite Maria Bethânia em instante confessional da entrevista que pauta o roteiro de Maria – Ninguém sabe quem sou eu, filme programado para estrear nos cinemas em 1º de setembro e com pré-estreias agendadas para a véspera.

Concedida pela artista a Carlos Jardim, diretor e roteirista do documentário, a entrevista – filmada em 24 de novembro de 2021 no palco do teatro do hotel carioca Copacabana Palace – é até certo ponto reveladora, inclusive por captar o desassossego que move o espírito inquieto da artista, e ajuda a traduzir em palavras o que o espectador vê ao longo do filme em imagem raras extraídas de ensaios de shows e dos espetáculos propriamente ditos da artista.

Cineasta debutante, Jardim tem dito que fez um filme de fã para fãs de Bethânia. Nesse sentido, Maria – Ninguém sabe quem sou eu cumpre plenamente o que se propõe porque o fã da cantora pode até encontrar áudios de shows antigos na internet, mas não take do ensaio de um espetáculo antigo como Maria Bethânia – 20 anos de paixão (1985) – momento em que se vê a cantora dar voz à então inédita Luz da cidade (Roberto Mendes e Jorge Portugal) – e tampouco imagens em movimento de números como Olhos nos olhos (Chico Buarque, 1976) e Beijo partido (Toninho Horta, 1975), extraídos dos shows Mel (1980) e A hora da estrela (1984), para citar três entre muitos possíveis exemplos de mimos para fãs.

Pelo que Bethânia permite saber dela na entrevista, o filme deixa entrever artista ciente das qualidades – “Eu sei exatamente o meu tamanho, nem para cima nem para baixo” – e perseguida pela incessante inquietude geradora de inseguranças. O que explica a cantora visualizar no microfone com fio uma espécie de “chicote na mão”, com o qual doma músicos e o próprio público quando está em cena.

“O palco é um altar”, resume, em outro take, a dona do dom que Deus lhe deu, consciente da aura sagrada que adquire enquanto permanece em cena (“Isso é indecifrável”).

Para voar – e esse é o verso usado pela artista na entrevista – na plenitude do palco, Bethânia exige que os músicos assentem bem o chão do qual se ergue e se agiganta no voo cênico, o que gera as notórias impaciências com a banda e os arranjadores dos shows (e há imagem no filme que explicita a tensão permanente entre cantora e músicos).

Por tudo isso, o filme Maria – Ninguém sabe quem sou eu ajuda a entender a personalidade complexa de Bethânia. Relaxada na presença do diretor-fã, a cantora se desarma, a ponto de admitir um fracasso, o do show A hora da estrela (1984), de insucesso atribuído pela artista ao “erro crasso” de não ter sido conduzida em cena pelo diretor Fauzi Arap (1938 – 2013) neste espetáculo baseado no homônimo romance de Clarice Lispector (1920 – 1977) e dirigido por Naum Alves de Souza (1942 – 2016).

É claro que Bethânia se mostra no limite da intimidade consentida, mas nem por isso deixa de fazer revelações como a de que debutou em cena na Bahia como percussionista de efêmero grupo chamado Selene Belos.

Muito do que é dito e visto é corroborado pelas leituras, na voz da atriz Fernanda Montenegro, de textos antigos de poetas, escritores e diretores como Caio Fernando Abreu (1948 – 1996), Fauzi Arap, Ferreira Gullar (1930 – 2016), Nelson Motta e Reynaldo Jardim (1926 – 2011), autor do livro Maria Bethânia – Guerreira guerrilha (1968). Enquanto os textos são ouvidos, o espectador vê sequências de fotos em preto e branco de Bethânia.

Por mais que a entrevista soe relevante, o trunfo de Maria – Ninguém sabe quem sou eu são os registros audiovisuais. Ver e ouvir Bethânia cantando Iansã (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1972) em 1973, em imagem que espanta por escancarar a semelhança física entre a cantora e o mano Caetano Veloso naquela época, legitima tudo o que é dito na voz da artista e nos textos lidos por Fernanda Montenegro.

Mesmo para quem já sabe (um pouco) quem é Maria Bethânia, o filme do diretor-fã Carlos Jardim oferece iscas que atrairão e deleitarão o séquito da cantora.

 

Fonte: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2022/08/22/filme-maria-ninguem-sabe-quem-sou-eu-capta-o-desassossego-de-bethania-entre-entrevista-inedita-e-imagens-raras-de-shows-antigos.ghtml